Deixo-vos aqui este desabafo escrito a pena por um irmão de meu tio. Admiro-o imenso!
Meu Deus! Meu Deus! Tende compaixão de mim. Compadecei-vos deste coração amargurado! Tende meséricordia de mim! Valei-me nesta minha tão aflita situação, porque só vós, meu deus conheceis as minhas misérias e me podeis dar alívio ao meu penar. Não posso recorrer a criatura humana para espalhar as minhas mágoas. Não me é permitido encostar a minha cabeça a um peito amigo para confessar as minhas penas que me desse alívio ao meu coração. Tenho que calar a minha dor e só recorrer a vós meu Deus de Misericórdia para que tenhais compaixão desta dor tão pungente e que me dês por caridade a graça que tanto necessito nesta hora tão atribulada da minha vida. O meu coração parece estalar de dor. A minha alma confrangida de amargura parece estalar dentro do meu peito, este peito que só alberga sentimentos tão impressionáveis que tanto me faz sofrer. O meu amor é tão grande e ninguém me compreende, só vós, Meu Deus é que sonhas a profundeza da minha alma e me compreendes. Recorri à pena para impressionar no papel e ao mesmo tempo falar convosco, Meu Deus e a ver se assim consigo, com as lágrimas a correr, aliviar o meu coração tão amargurado e oprimido. Há uma pessoa leal que me é muito querida, que me ama muito e que daria a vida por mim. Eu estimo e amo muito esse coração que me pertence, mas não tenho o direito de sacrificar esse coração com o meu desabafo e nem mesmo seria compreendido, apesar de ser compreendido em tudo o mais por essa santa criatura. Portanto Meu Deus, só Vós sereis o meu confidente e este papel, com quem eu tenho o máximo cuidado para não mancha-lo com as minhas lágrimas que correm abundantemente dos meus olhos já queimados, de tantas ter vertido. É feio um homem chorar, disse alguém, mas que importa, só sinto um pouco de alívio depois de ter vertido algumas lágrimas, embora o desfalecimento seja mais acentuado no meu corpo, e também ninguém vê eu chorar porque na solidão é que eu me posso expandir com a minha dor. Não é feio um homem chorar quando a dor obriga, e esta dor que me tortura é tão crucial que eu não posso, não posso, não posso suporta-la, parece que o meu coração se parte desde o fatídico dia 27 de Junho de 1952, dia que começou esta tribulação para mim. Tenho querido reagir, mas não a há maneira, não posso. É tão funda a impressão na minha alma que nem com a satisfação de eu próprio querer, encontraria a felicidade. Mas que posso eu fazer Meu Deus! Meu Deus, Meu Deus. No meu espírito doentio e atribulado eu idealizo sonhos impossíveis de realizar porque o meu coração alberga sentimentos elevados e esquisitos o que muito me faz sofrer. Apetecia-me expandir esta dor com manifestações de carinho e ternura que na violência do meu peito oprimido, não me é licito manifestar, este génio tão arrebatado só a mim prejudica, só a mim me martiriza na impossibilidade de a satisfazerem. Oh Mãe de Jesus, minha Mãe querida! Mãe do Meu Deus e Meu Senhor compadeceis-vos de mim! Intercedei junto daquele que é tudo para que me dê a paz á minha alma e a graça santificante para o meu coração atribulado que nem sabe o que o possa satisfazer. Nesta vida insatisfeita, neste meu sangue que escalda de doente, há ocasiões que o meu coração parece gelar, outras ocasiões as minhas veias escaldam com os ardores do meu sangue que me escalda e que me tortura. Nunca na minha vida senti coisa igual, não sei, não posso descrever! Todo o meu ser está alterado, a impetuosidade do meu sangue ardente devora-me e queima-me os nervos o que me faz cair numa prostração desalentada e martirizante. Nunca julguei que viesse a passar por estas provações, nem sabia o que isto era, não sei, não posso explicar a mim próprio o que isto é, embora saiba qual é o motivo que dá origem a estas perturbações.
Já são passados 19 meses, menos um dia que foi o começo do meu martírio e da minha tribulação que já estava um tanto serenado e o meu coração já não sangrava tanto no meu peito, já aquele sentimento que acometera já não era tão prejudicial ao meu amor doentio, embora não me tivesse esquecido, quando a 26 de Janeiro de 1954, sem que eu nunca estivesse pensado nem alimentada qualquer ilusão a tal respeito, deu-se o inevitável e agora foi um facto consumado, para meu maior mal, maior mal devido ao meu génio e ao meu feitio e devido a não sei o quê, não sei explicar porque sinto isto, para mim foi uma coisa nova, na minha vida, uma coisa horrorosa e ao mesmo tempo tão suave ao meu coração porque ao mesmo tempo que me sinto cheio de tristeza o meu peito abrasa com este sentimento novo, que me revigora e me abate ao mesmo tempo. Não chego a compreender-me, todo o meu ser se recente, o meu corpo treme em só pensar em tal, quero e não quero, desejo e tenho medo. Deu-se o que eu não julgava que viesse dar-se, deu-se o inevitável, nunca experimentei tal em minha vida e agora acredito que ninguém é velho para pagar pecados ou para contrai-lhos ainda mais. Meu Deus que foi isto? Que foi isto que me aconteceu? Não sei que foi isto. Não sei descrever o que no meu intimo se passa, só sei que é um sentimento novo que experimento e que me faz tanto mal mas que ao mesmo tempo eu desejo…